A investigação de vírus presentes em animais silvestres pode ajudar a identificar doenças ainda pouco conhecidas e antecipar possíveis ameaças à saúde humana. É esse o desafio que mobiliza o médico-veterinário e pesquisador Arthur Brasil, professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), à frente de um estudo sobre o viroma da fauna silvestre paraibana. A pesquisa é uma das contempladas na Chamada Universal do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), cujo resultado preliminar foi divulgado na terça-feira (3).
Ao todo, 27 pesquisadores da UFPB tiveram projetos aprovados na Chamada CNPq/FNDCT nº 06/2026 – Universal, nas faixas A, B e C, somando R$ 4.463.338,81. O edital apoia projetos de pesquisa que contribuam significativamente para o desenvolvimento científico e tecnológico e para a inovação no país, em qualquer área do conhecimento. A Pró-Reitoria de Pesquisa (Propesq) atua no acompanhamento e no apoio às atividades de pesquisa da Universidade.
As propostas aprovadas pela UFPB abrangem diferentes campos do conhecimento e tratam de questões que vão da prevenção de doenças à transição energética, passando pela alimentação, pelas artes visuais, agronomia, desenho industrial e investigação de espécies da Caatinga.
Para Arthur Brasil, a aprovação dá continuidade a uma trajetória de pesquisa iniciada em 2009. O projeto atual, intitulado “Vigilância Genômica do Viroma da Fauna Silvestre da Paraíba: Uma Abordagem em Saúde Única para a Detecção de Vírus Emergentes”, busca identificar vírus presentes em animais silvestres e investigar a possibilidade de descoberta de novos agentes infecciosos com potencial zoonótico e pandêmico. A pesquisa considera que mudanças ambientais e climáticas podem influenciar o surgimento e a circulação de doenças.
O trabalho reúne colaboradores de diferentes instituições, entre elas a Universidade Jiao Tong de Xangai, as unidades da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) de Fortaleza e Pernambuco e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), além de outros laboratórios e pesquisadores parceiros.
Esta não é a primeira vez que Arthur tem um projeto aprovado na Chamada Universal. Em 2023, ele também foi contemplado. Ao falar sobre a nova aprovação, o pesquisador destaca que o resultado não é individual.
“Essa conquista do financiamento da pesquisa é uma conquista coletiva, sobretudo do nosso grupo de pesquisa, do Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal e dos dois campi da UFPB, o campus I, representado pela direção do CCS, e o campus II, representado pela direção do CCA. […] E deixo o destaque principalmente para os nossos alunos, que contribuem para que isso funcione”, afirma.

Na área de Nutrição, o professor José Luiz de Brito, do Departamento de Nutrição da UFPB, coordena o projeto “REGAIN Kids”. A pesquisa investiga se a Dieta Cardioprotetora Brasileira (DICA-Br) pode melhorar a saúde cardiovascular de crianças com obesidade, considerando seus efeitos sobre a microbiota intestinal e o sistema nervoso autônomo, responsável por regular funções como a frequência cardíaca e a pressão arterial.
A proposta parte de uma intervenção alimentar baseada em alimentos acessíveis e adaptados à realidade brasileira. O objetivo é compreender como essa estratégia pode contribuir para a prevenção de doenças cardiovasculares desde a infância e produzir evidências para o desenvolvimento de ações de cuidado nutricional voltadas à saúde infantil.
A aprovação também representa uma nova etapa na trajetória do pesquisador, que começou a estudar a relação entre alimentação e saúde ainda durante a graduação em Nutrição. “A aprovação do REGAIN Kids representa mais uma etapa importante dessa trajetória, especialmente por permitir avançar em estudos experimentais e observacionais para uma investigação clínica voltada à prevenção cardiovascular desde a infância”, explica.
Os recursos serão utilizados na aquisição de materiais, reagentes e insumos laboratoriais necessários às análises bioquímicas, inflamatórias e moleculares, além da investigação da microbiota intestinal das crianças participantes. Para José Luiz, os resultados poderão contribuir futuramente para orientar políticas públicas e estratégias de promoção da saúde infantil.

Pesquisa e transição energética
No Centro de Energias Alternativas e Renováveis (CEAR), o professor Oswaldo Hideo Ando Júnior coordena o projeto “Arquitetura de Planta Virtual de Energia (VPP) para Despacho de Armazenamento Híbrido”. A pesquisa é desenvolvida pelo Grupo de Pesquisa em Energia e Sustentabilidade Energética (GPEnSE), em colaboração com pesquisadores da UFPB, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) e da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).
O estudo busca desenvolver estratégias inteligentes para integrar fontes renováveis de energia e diferentes tecnologias de armazenamento, especialmente baterias e hidrogênio verde. A proposta é desenvolver uma Planta Virtual de Energia (VPP, na sigla em inglês), uma plataforma inteligente capaz de coordenar diferentes recursos energéticos, mesmo quando estão instalados em locais distintos. Com esse gerenciamento, será possível definir quando armazenar a energia excedente e quando disponibilizá-la para atender à demanda.
Entre os resultados esperados estão o melhor aproveitamento das fontes renováveis, a redução do desperdício de energia e o desenvolvimento de soluções que contribuam para sistemas elétricos mais flexíveis e confiáveis.
Esta é a quarta vez que o pesquisador tem um projeto aprovado na Chamada Universal do CNPq. “Considero que essas aprovações refletem a continuidade e o amadurecimento das atividades de pesquisa que desenvolvemos ao longo de 12 anos, além da capacidade de identificar e se adaptar aos novos desafios científicos e tecnológicos. É fundamental agradecer e estender esta conquista a todo o time GPEnSE, pois este resultado é fruto do trabalho conjunto de estudantes e pesquisadores em rede de cooperação multidisciplinar”, destaca.

A pesquisa em artes visuais
Na área de Artes, o professor Robson Xavier coordena o projeto “Fora do eixo: História e Curadoria das Bienais de Artes Visuais no Nordeste do Brasil”. A pesquisa investiga a história das bienais e das práticas curatoriais realizadas na Paraíba e em outros estados nordestinos, com base em documentos, registros de jornais, catálogos, fotografias, vídeos e entrevistas com participantes desses eventos.
Vinculado ao Grupo de Pesquisa em Arte, Museus e Inclusão (AMI/UFPB/CNPq), que desenvolve estudos sobre o tema desde 2018, o trabalho também se relaciona ao Programa Associado de Pós-Graduação em Artes Visuais da UFPB e da Universidade Federal de Pernambuco (PPGAV UFPB-UFPE). Entre os objetivos estão mapear as bienais realizadas na região, organizar um banco de dados digital, analisar o impacto dessas iniciativas e produzir livros e artigos científicos, além de promover um seminário sobre a história das exposições e bienais no Nordeste.
“Desenvolver pesquisa na área de artes visuais com financiamento do CNPq implica na valorização da produção das pesquisas realizadas no âmbito do Nordeste brasileiro”, afirma Robson Xavier. O professor destaca que os recursos permitem realizar pesquisas de campo, visitar acervos, consultar fontes documentais e ampliar a circulação dos resultados por meio de publicações e intercâmbios entre instituições e pesquisadores.

Biodiversidade da Caatinga em investigação
Na área de Farmácia, o professor Josean Fechine Tavares coordena o projeto “Metabólitos em espécies de Euphorbiaceae do Semiárido: caracterização, isolamento e citotoxicidade”, desenvolvido no Laboratório Multiusuário de Caracterização e Análise do Instituto de Pesquisa em Fármacos e Medicamentos.
A pesquisa investiga substâncias presentes em espécies vegetais da Caatinga, com o objetivo de identificar moléculas com potencial atividade biológica, especialmente ações citotóxicas e anti-inflamatórias. O estudo envolve análises fitoquímicas e farmacológicas, com técnicas de separação e caracterização de compostos e ensaios realizados em laboratório.

A investigação parte do potencial da biodiversidade brasileira como fonte de substâncias que podem servir de base para o desenvolvimento de novos compostos de interesse farmacológico. Os recursos aprovados serão destinados à compra de solventes, reagentes e gases utilizados nos equipamentos analíticos, além de linhagens celulares para os ensaios e serviços de manutenção dos equipamentos.
A aprovação dos projetos na Chamada Universal evidencia a diversidade de pesquisas desenvolvidas na UFPB e o trabalho de equipes que envolvem docentes, estudantes, técnicos e instituições parceiras. Confira a relação dos 27 pesquisadores da Universidade contemplados no resultado preliminar do CNPq.



